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24/10/2013

Brasil envelhece antes de ficar rico

O Brasil está envelhecendo antes de ficar rico. É uma situação preocupante pois as conseqüências do envelhecimento da população são muito relevantes para a situação econômica do país. Uma população envelhecida consome menos bens – e isso impacta indústrias e mesmo arrecadação fiscal. Por outro lado, tem mais gastos com saúde. Quem pagará essa conta?

“Estudos do mundo inteiro demonstram que a tendência é preocupante e é uma situação na qual os setores público e privado precisam discutir juntos as soluções possíveis”, disse o presidente da Allianz Seguros, Edward Lange, na abertura do 8º Fórum Internacional de Seguros para Jornalistas.

O Brasil está muito próximo do cenário já visto em países europeus, com seus sistemas de previdência social entrando em colapso financeiro. 11% da população mundial, perto dos sete bilhões de habitantes, já é formada por pessoas acima de 60 anos. Em 2050, esse índice subirá para 22% – com o número de habitantes no mundo pulando para nove bilhões. A taxa de fertilidade também está caindo. As mulheres estão tendo filhos mais tarde. A média de idade mundial passou de 30 para 38 anos (variando de acordo com o continente).

O país já soma mais de 200 milhões de habitantes e deve alcançar 230 milhões nos próximos 30 ou 40 anos. A taxa de fecundidade passará de 1,8 filhos por mulher para 1,5 filhos por mulher no mesmo período. Hoje já são cinco brasileiros economicamente dependentes para cada 10 ativos.

Para os especialistas presentes, para o Brasil superar o problema de envelhecer sem se tornar rico o suficiente para poder custear a população longeva, o país terá de focar em quatro fatores: manter ou aumentar sua capacidade econômica; reformar o sistema de previdência social; aumentar a produtividade, elevando o tempo de vida profissional de seus trabalhadores, e aceitar mais imigrantes qualificados.

O economista-chefe da Allianz SE, Michael Heise, foi o convidado internacional do fórum e apresentou números que comprovam essa tese. A população que mais irá crescer até 2020 será a mais velha. É uma situação que já ocorre em países europeus e traz encargos para a previdência social e a saúde.

Na análise do economista, o Brasil deverá ainda diminuir o valor gasto com previdência. O país gasta 8% do PIB para pagar pensões. Segundo Heise, não parece muito se comparar com o resto do mundo, mas é se levar em conta a dependência de idosos, que é mais alta em outros países. “O Brasil precisará corrigir o fator previdenciário. É uma medida desconfortável, mas necessária”, disse. Aqui, a taxa média de pensão equivale a 85,9% do salário original, contra 63,1% dos países da União Europeia, 42% da Alemanha e 36,3% do Japão.

O aumento da produtividade do brasileiro e o aprimoramento desta mão de obra são outros fatores cruciais. Afinal, com menos pessoas economicamente ativas, os salários deverão ser maiores para suportar os mais velhos. Mas a qualificação é importante. O Brasil tem poucas pessoas adequadamente qualificadas no mercado de trabalho. Reflexo do baixo investimento em educação.

Uma situação que pode surgir com o avanço de mais profissionais trabalhando até mais tarde é a permanência de pessoas mais velhas seguro saúde coletivo oferecido pela empresa aos trabalhadores. Felipe Gomes, diretor executivo de gestão de mercado e estratégia da Allianz, acredita que isso pode aumentar o custo do benefício. No entanto, existem ferramentas que podem ser utilizadas pelas seguradoras e operadoras de saúde para diminuir esse possível aumento de custo, que são ações com foco na prevenção de doenças. “São medidas de educação, acompanhamento e controle”, apontou Ingo Dietz, diretor executivo da seguradora. Ou seja, existem formas e ferramentas para tentar melhorar  a qualidade de vida e evitar que chegue a uma situação crítica.

Um ponto positivo destacado por Heise foi o nível de desigualdade social e de pobreza, que foi reduzido nos últimos anos. Ainda não é o ideal, mas são passos importantes.

André Portella, pesquisador e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP) frisou que o número de jovens atuantes no mercado de trabalho cresceu muito nos últimos anos. A presença da mulher também, especialmente da década de 1990 até os dias atuais. “Mas ainda estamos abaixo das taxas internacionais”, refletiu.

O especialista comentou que o aumento da produtividade do trabalho não depende apenas da qualificação do trabalhador atual, mas das futuras gerações também. Em 1960, a média de escolaridade do trabalhador brasileiro era de dois anos. Hoje, a média já é sete. “Cresceu, mas estamos abaixo de países como a Coreia do Sul, que saltou de três anos de escolaridade por habitante, em média, para 12 anos”, apontou Portella.

Ele ainda comentou sobre a questão da imigração. Segundo os números apresentados, o Brasil foi um “país de imigrantes” no início do século. Em 1900, 7,3% da população era composta por imigrantes. Nos dias atuais, o índice chega a 0,3%. “Isso mostra que somos fechados para pessoas qualificadas”, indicou. Na Suíça, quase um quarto da população (23%) é formada por imigrantes.

O economista e pesquisador do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) Marcelo Caetano focou seus comentários na formação de poupança necessária para custear os reflexos causados pelas mudanças demográficas. A Europa levou 50 anos para elevar a parcela da população formada por idosos de 10% para 20%. Já a América Latina levará de 20 a 25 anos para alcançar o mesmo índice. “Mas o padrão de renda dessas duas regiões são bem distintos”, ponderou.

O PIB europeu gira na faixa dos R$ 32 mil dólares per capita por ano. No Brasil, o índice é de R$ 12 mil. “Fica difícil imaginar um crescimento econômico mais acentuado com a população envelhecida, que estaria fora do mercado de trabalho e sem produzir. Para chegar ao mesmo nível de renda europeu, levaremos meio século”, considerou Caetano.

Para a economia crescer, explanou o pesquisador do IPEA, o Brasil precisa melhorar sua infraestrutura, investir em capital humano e físico, além de aumentar sua poupança. Para investir, é preciso ter fontes de recursos financeiros. “Tem que incentivar a formação de poupança privada”, insistiu. Isso porque o envelhecimento populacional gera o desafio do aumento da poupança privada. Se o brasileiro poupa pouco quando jovem, quando idoso poupa menos ainda, pois é o momento de usufruir o que acumulou. “Não faz sentido para a cultura brasileira poupar quando velho, pois somos diferentes de outros países, que têm a cultura de poupar quando mais velho para deixar herança para seus filhos”, articulou.

Outro ponto que deve ser levado em conta é o cuidado com os idosos. Em um país onde tendência do filho único é cada vez maior, quem cuidará dos idosos? Aqui, o padrão deste cuidado é privado e familiar e pesará no custo familiar.

 

Fonte: Revista Apólice

Link: http://revistaapolice.com.br/2013/10/brasil-envelhece-antes-de-ficar-rico/